Mostrar mensagens com a etiqueta Público. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Público. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de maio de 2021

“Absoluta integridade moral” (*)

Em artigo deste jornal do passado 25 de Abril, escreveu a conspícua jornalista Teresa de Sousa o seguinte:

À frente do Governo, do Parlamento e da Presidência estão três cidadãos de absoluta integridade moral, que representam a moderação contra o tribalismo e que têm um passado de defesa intransigente da democracia liberal”.

Relativamente à “absoluta integridade moral” do cidadão que está à frente do Governo, permito-me observar: como é amplamente conhecido e comentado, dá-se ao vezo de afastar dos lugares de relevância política e administrativa as personalidades independentes e imparciais, quando a “integridade moral” das mesmas o incomoda, substituindo-as por compinchas, parentes, padrinhos de casamento, colegas de faculdade e outros yes-men, como se o país se reduzisse ao círculo dos seus muchachos e ao seu tribalismo partidário, num modus operandi obsceno e desbragado.

Pergunto, pois: com que óculos e de que cor a jornalista Teresa de Sousa observa a realidade?


* Carta enviada ao jornal "Público" em 28 de Abril último e não publicada.

 

 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Cantigas, ó Rosa

Dei-me ao trabalho de ler, no Público de quinta-feira, o extenso, meandroso e pernóstico relambório do ex-director-geral da Política de Justiça, e relativo aos anteriormente "lapsos" , aos agora "erros" e aos futuros (...?), no currículo do candidato português a procurador europeu. 

Não lhe faltaram até eruditas citações, como esta de Bento de Jesus Caraça "Se não receamos os erros , é porque estamos sempre prontos a corrigi-los." (Comovente humildade!). Tantos esforços e contorções para branquear  "uma decisão política, democrática, legal, justificável e transparente". 

Porque será que no fim, e mesmo assim, não me convenceu o seu latim? Porque, curiosamente, me lembrou este provérbio latino "Excusatio non petita, accusatio manifesta", ou seja, em português vernáculo: "Uma desculpa não pedida é uma acusação manifesta".

Ligações: Público carta ao director (16 Jan 2021); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Latinismos e moralismos

Em texto aqui publicado em 22-12-20, mencionei a expressão latina canes muti non volentes latrare, que é uma injunção bíblica e metafórica dirigida àqueles que, investidos em altas funções e devendo erguer a sua voz quando se torna necessário, não o fazem. O sr. António Cândido Miguéis (ACM), na sua epístola de 28-12-20, invectiva-me por eu não ter traduzido a expressão para português, “porque nem todos os eleitores do PÚBLICO estudaram latim” e porque, com essa frase, por ele considerada “quase injuriosa”, eu “exprobrei” os nossos bispos e cardeais. Ora o sr. ACM compreendeu perfeitamente a frase, e se o fez sem ter estudado latim, só me vem dar razão: não necessitava de ser traduzida; se o fez com conhecimento do idioma de Cícero, então entendeu-a de modo excessivo: viu nela o que lá não estava, ou seja, a “exprobração” aos nossos antístites. 

Uma das razões pelas quais eu não traduzi a expressão foi para não subestimar o entendimento e a literacia dos leitores (a bom entendedor meia palavra basta). E o sr. ACM até me devia agradecer o não ter menosprezado o seu acerado entendimento. Entendimento a cuja performance só faltou entender que, a haver naquela expressão latina algum resquício de “exprobração”, a responsabilidade deve ser pedida à Sagrada Escritura e não a mim.

domingo, 27 de dezembro de 2020

A Torre Bela e a alma

Imaginemos, por momentos, que as imagens que vimos na TV da carnificina na Torre Bela, em vez de serem cadáveres de gamos, veados e javalis, eram de homens, mulheres e crianças. Não nos passaria pela cabeça que seriam o resultado de um ataque de animais selvagens. Estes, quando matam as suas presas, não o fazem em tão larga escala, só matam por necessidade de defesa ou de subsistência, não dispõem os corpos alinhados em filas daquela maneira e, sobretudo, não matam por prazer, por desporto ou para fazerem colecção das suas vítimas.

São, segundo nós dizemos, animais “irracionais”. E, todavia, têm alma como nós. A palavra “animal” vem do latim anima, que significa alma, e quer dizer isso mesmo: dotado de alma. Por ter escrito isso num jornal da minha terra, escandalizei muitas almas pias e até fui chamado à pedra por um senhor cónego, vigário geral da diocese. Verdade seja dita que na conversa que tive com ele, e sem embargo da sua baixa literacia teológica, e de ser um salazarista impenitente, até me pareceu uma boa alma e por certo neste momento está no céu em alma e corpo.
 
Para afirmar que os nossos irmãos “irracionais” são também portadores de alma, nem precisamos de nos respaldar em renomados teólogos. Sentimo-lo e intuímo-lo quando somos atravessados pelo olhar de um cão abandonado, quando nos arrepiamos com as sevícias a que são sujeitos os touros nas arenas, quando nos deliciamos a ver o modo como as aves alimentam no ninho os seus filhotes e como outros animais defendem até à morte as suas crias. 

Porém, diante daquelas imagens que vimos na TV, eu já começo a duvidar que todos os animais sejam dotados de alma. Mas, a haver alguma espécie que o não seja, não tenho quaisquer dúvidas: trata-se do homo sapiens. Bom Natal.

Ligações: Público, carta ao director (27 Dez 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

E os nossos bispos e cardeais?

A população do nosso país é constituída na maioria por católicos, numa proporção que anda pelos oitenta por cento, segundo as estatísticas. Consequentemente é presumível que o bando de algozes que trataram e mataram o imigrante ucraniano Ihor Homenyuk e tentaram ocultar a sua tenebrosa façanha, era, na sua maioria, composto por baptizados e, quiçá, alguns até fossem à missa.

Os católicos dizem-se cristãos e uma das mais valiosas heranças da cultura cristã, e tradição já herdada dos antigos tempos bíblicos, é o acolhimento fraterno aos estrangeiros, aos migrantes, aos refugiados, aos peregrinos. A hospitalidade é para o cristão um dever sagrado; dar pousada a um expatriado é como uma visita de Deus a nossa casa.

O crime inominável perpetrado no SEF é um golpe cravado no âmago da mensagem evangélica, um buraco negro na mundividência cristã. Amarfanha-nos, interpela-nos. O Papa Francisco foi a Lampedusa testemunhar a sua vergonha pela forma como a Europa, que se reclama da "civilização cristã", trata os emigrantes e na sua recente encíclica Fratelli Tutti dedica largo espaço ao assunto. E entre nós onde param os hierarcas da igreja? Eu esperava que se manifestassem para me sentir mais acompanhado, mas até agora, como em muitas ocasiões, só vejo canes muti non volentes latrare. Este crime não os concerne? É para não se imiscuírem na política? Mas a política impede alguém de exprimir os seus sentimentos, de se condoer, de se exasperar, de chorar?

Ligações: Público carta ao director (28 Dez. 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Dois colunistas que muito prezo

Independentemente da adesão ou não adesão às posições ideológicas de dois conspícuos colunistas do PÚBLICO, ambos de apelido Tavares, um de nome João Miguel e outro de Rui, é de flagrante interesse, maxime para quem seja apreciador de performances retóricas, a análise da argumentação brandida por cada um dos dois contendores nos respectivos textos que deram a lume neste jornal, nos dias 24 e 25 do corrente mês, a propósito do venturoso partido Chega. 

O esgrimir de razões, o virtuosismo dialéctico, os golpes de judo mental, a maneira como um trunfo se pode virar ao contrário, bem merecem ser estudados nas disciplinas literárias das nossas faculdades. Os mestres dessas matérias teriam aí um oportuno case study para utilizarem nas aulas práticas.

Ligações: Público carta ao director (30 Nov2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Os Juízes, o Estatuto e o Conduto

Os nossos meritíssimos juízes são, como todos sabem, os servidores do Estado mais mal pagos, podendo até, nos escalões superiores da sua carreira, ultrapassar o vencimento do Primeiro Ministro. 

É por isso que, desde que os conheço, os vejo permanentemente a reclamar o reconhecimento da sua dignidade. E em que consiste a dignidade de Suas Meritíssimas Exc.ªs? Inibem-se de o dizer à s claras, não se vá pensar que maculam a sua dignidade com algo de impuro. Temos de ler nas entrelinhas do seu discurso, como por exemplo, no artigo do juiz Filipe César Marques (Público de 20-11-2018), quando reclama a “densificação”(?!) do respectivo Estatuto e compara os juízes portugueses aos magistrados de outros países da União Europeia, em vez de os comparar ao nível de vencimentos dos servidores do estado do nosso país.  

E em que consiste a tal “densificação”, um termo tão eufemisticamente curioso? Consiste em adicionar o conduto ao Estatuto, sendo que, no caso, conduto é igual a cum-quíbus. 

Eu cá não sou de intrigas, mas aposto com quem quiser, dobrado contra singelo, que as Meritíssimas Exc.ªs que fazem greve por causa de um Estatuto sem conduto,Zz deixariam de a fazer se lhe dessem um conduto sem Estatuto.

sábado, 12 de setembro de 2020

A cidadania e outras coisas

Vai por aí uma grande rebaldaria por causa de um prato gastronómico, que consta no cardápio educativo, com o nome de “Cidadania e Desenvolvimento”. A coisa chegou a tal ponto que a deputada Isabel Moreira (a mosca acorre ao mel e à fracturância acorre a Isabel) que é fã do acepipe, atribui aos seus opositores labéus e indignidades como “mentiras abjectas”, “argumentos abusivos”, “bizarrias jurídicas”, “cabeça povoada de sexismo, racismo ou homofobia”, “agenda de ódio” e outros mimos (cf. “Público” de 10-09-2020). 

Dado que à cabeça da lista de subscritores do manifesto anti-ementa figura o nome do pai da deputada, Adriano Moreira, tais ignomínias (pasmai ó gentes!) atingem o próprio progenitor da dita cuja. 

Na minha maneira de ver, trata-se de uma tempestade, não diria num copo de água, mas mais propriamente num cozido à portuguesa. A questão não está em rejeitar o prato sem mais, pois no cozido constam várias iguarias e se há quem não goste de uma delas, por exemplo do chispe, retire-se de lá esse ingrediente e mantenha-se o prato. Tão simples como isso. Cristóvão Colombo não descobriu apenas a América, mas também o ovo com o seu nome. Façam como ele, e bom apetite para todos.

sábado, 29 de agosto de 2020

Os CTT do nosso descontentamento

Que saudades eu já tenho do tempo em que recebia a minha correspondência a tempo e horas, recebia as revistas e os jornais que assino sem semanas de atraso ou no “Dia de São Nunca”, e já depois de ter lido as respectivas notícias e conteúdos noutros órgãos de informação! 

Só quando perdemos as coisas é que lhes damos valor, e eu valorizo mais agora os antigos CTT que, não sendo perfeitos, cumpriam a sua missão a contento. Até mudei a minha opinião sobre as empresas públicas versus privadas, pois detestava as primeiras e enaltecia as segundas!... 

Leio no PÚBLICO de hoje (28-08-2020) que a Anacom, regulador das comunicações, “destaca que é o quarto ano consecutivo que a empresa falha o cumprimento da totalidade dos indicadores de qualidade de serviço”. 

Então pergunto: o que fazem os partidos e o Governo? Ocupam-se com o sexo dos anjos?

Ligações: Público carta ao director (28 Ago 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

sábado, 4 de julho de 2020

Covid-19, verdade e humildade

Não pertenço ao partido do Governo. Mas isso não me impede de reconhecer que as autoridades da saúde têm feito o melhor que podem, não se poupando a esforços e à vontade a de acertar. Eu não me queria ver na sua pele. Se outros estivessem em seu lugar, fariam melhor?
 
Nem o país nem as estruturas de saúde estavam preparadas para este tsunami viral e, sejamos honestos, não podemos estranhar que, nestas circunstâncias, possa haver falhas aqui e acolá. O contrário é que seria estranho. Por isso achei destemperadas e intempestivas as declarações do presidente da Câmara de Lisboa, a tal respeito e que, mesmo sem querer, nos insinuam: que desígnio terão latente?
 
No entanto não acho criteriosa nem prudente a afirmação da ministra da Saúde de que “não há nenhum caso de infecção associada a transportes públicos”. Sabendo-se que uma das causas mais propiciadoras da infecção são os ajuntamentos, e constatando que em muitos transportes públicos as pessoas vão ao molho, é praticamente impossível que daí não resultem infecções, mesmo que não se conheçam.
 
Tenho relutância em fazer, a propósito dos transportes, a leitura que alguns fizeram a propósito das máscaras: são ineficazes porque não as têm. Há problemas que não se resolvem a curto prazo. É a vida. Custa tanto a reconhecê-lo?

Ligações: Público, carta ao director (4 Jul 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

Acordo ortográfico

Para quem vem acompanhando, há anos, a vexata quaestio do (des)acordo ortográfico, a carta que o embaixador Seixas da Costa escreveu sobre o assunto neste jornal, no dia 4 do corrente, é no mínimo repugnante. “Carta sobre o assunto” não é porventura a expressão mais adequada, porque o sr. embaixador não escreveu propriamente sobre o (des)acordo, até porque não deve perceber muito acerca do tema. A carta é sobretudo ad hominem, contra o jornalista Nuno Pacheco (não conheço o jornalista a não ser pelos seus escritos, nem ele precisa de ajudas alheias na defesa da sua honra). 

O sr. embaixador não gosta que se grafe com minúscula o dito cujo (des)acordo, pela mesma razão, diz ele, que no tempo da outra senhora a PIDE minusculizava o “partido comunista”. São gostos, não se discutem. Mas discutem-se, sim, as bases anticientíficas, a acefalia e a prepotência com que tais normas foram impostas contra tudo e contra todos, e que conduziram ao actual caos que só não vê quem não quer ver. 

O referido diplomata, e sem qualquer diplomático prurido, atira-se a um jornalista que tem sido paladino na defesa da abolição do malfadado (des)acordo, acoimando-o de escrever os seus artigos “onanisticamente, para prazer solitário”. O sr. embaixador Seixas da Costa, que tão desinibidamente diz o que gosta, está a precisar duma pouco diplomática resposta. Para já, de uma coisa pode ficar certo: que na investida contra o jornalista está mais solitário, do que está o jornalista contra o acordo asinário.

Avante, artistas, avante

Faz-me sempre muita espécie, acho mesmo repugnante saber que certos artistas se digam não comunistas e vão à festa do Avante.   ...