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quarta-feira, 12 de maio de 2021

FORA COM O GALAMBA

  

O membro deste Governo

que tutela a energia

de energia não tem míngua,

mormente quando se trata

de fazer usa da língua.

 

Língua tão grunha e tão rasca,

latrinária e poluente,

imprópria até duma tasca,

quanto mais de um Ministério

que se diz do Ambiente!

 

Num rebate de decência

corram de lá esse traste;

pra avacalhar o país

já temos choldra que baste.

 

       

                                          

 

 

 

domingo, 11 de abril de 2021

OS TRIBUNAIS


Disseram-me que a justiça

morava nos tribunais,

fui lá para a conhecer,

de justiça nem sinais.

 

Fui à Operação Marquês

na esperança de a encontrar;

foi tanta a areia nos olhos

que estive quase a cegar.

 

O juiz que presidia

aceitava sem tugir

que alguém vendesse cabritos

sem ter cabras pròs parir.

 

Ó mar alto, ó mar alto,

de perigos abissais,

mais vale andar no mar alto

do que andar nos tribunais. 

 

                                                         

domingo, 4 de abril de 2021

BILHETE DE IDENTIDADE

 


 

Eu sou Vara de apelido

e sou de além do Marão,

mas por lá Varas há mais;

não quero ser confundido

com o Vara de Vinhais,

o tal Vara dos robalos

que é notícia nos jornais

pelas piores indecências.

Eu não trafico influências,

subornos de sucateiro;

eu não sou Vara de porcos,

sou Vara de marmeleiro.

 

 

 

 

                                                                        

quinta-feira, 1 de abril de 2021

MADAMA DE RAÇA

   [Aos moradores da freguesia da Ameixoeira (Lisboa) 

que têm defendido os animais abandonados]

 

 

 

Apareceu aqui ao abandono,

era um cachorro meigo o “Amarelinho”;

e enquanto procurávamos um dono,

dávamos-lhe de comer e de carinho.

 

Ele já nos conhecia;

vinha, abanando a cauda, ter connosco,

lambia-nos as mãos, agradecia.

 

Por perto um dia passa

a mais fina madama cá da praça,

levando pela trela

a sua cadela de raça.

 

A bicha, em pleno cio,

lançou o seu olhinho,

num claro desafio

ao nosso “Amarelinho”.

 

Não tolera a madama

que um humilde rafeiro

tenha acorrido ao cheiro

da lulu topo-de-gama.

 

E inchada em seu orgulho,

a fina flor do entulho,

sem mais contemplação,

chama o esquadrão da morte

da Câmara Municipal

para abater o cão.

 

Foi assim por desgraça

que ficou a saber-se em toda a zona,

p’la cadela de raça,

qual a raça da dona;

 

E que na lotação

dos nossos animais

temos um cão a menos

e uma madama a mais.

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

OS CORNOS DO SENHOR PADRE

 

 

O pároco de Barrancos

anda muito amofinado,

por dizerem que tem cornos

não sendo ele casado.

 

Pois saiba o Sr. Vigário

que já não é o primeiro

a quem coube esse fadário:

ter cornos sendo solteiro.

 

E ter mulher ou não ter

não muda a situação,

pois nada pode fazer

quem nasceu para cabrão.

cornos tem o Mafarrico

e dizem que é solteirão.

 

E há p’ra aí muito sacana

que devia olhar-se ao espelho

e estar muito caladinho;

que é de raça alentejana,

mas manda cada chavelho

Que até parece do Minho.

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

MAROTÍSSIMOS JUÍZES

 

 

Greve da magistratura,

órgão de soberania?!

é algo contranatura,

o cume da aleivosia.

 

Da função de magistrados

só querem ter o proveito;

pretendem ser respeitados

sem se darem ao respeito.

 

E inda querem que o País

não fique de olhos em bico

ao ver o sr. juiz

mijar fora do penico?

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

terça-feira, 30 de março de 2021

Colaboração in "QUEM ME DERA CÁ O TEMPO - Antologia da Maria Castanha"

 

Envio de colaboração

(ao Dr. Jorge Lage para a “Antologia da Maria Castanha”)

 

Venho satisfazer o compromisso que assumi de lhe enviar um texto para a sua antologia de homenagem ao castanheiro. Se não me apressasse a fazê-lo, além do risco que já corro por pertencer ao grupo mais acossado pelo assassino coronavírus, ficaria sujeito a outro ainda pior: ter de vaguear para sempre neste mundo, como alma penada, que é, segundo voz corrente, o castigo a que são condenados os que morrem com alguma promessa por cumprir.

O texto que aqui vai é de urdidura poética, em versos decassílabos e em número de catorze, como nos sonetos, e também, como eles, passível de emenda, até porque pode não corresponder ao caderno de encargos da encomenda e à dignidade devida àquela árvore tão nossa amiga. Por isso, o encomendador fica de mãos livres para, se o entender, lhe barrar a entrada na antologia, sem qualquer melindre da minha parte, até porque eventuais defeitos detectados no controlo de qualidade serão da inteira responsabilidade do coronavírus, pelas perturbações que trouxa à minha musa, e porque o que está em causa é, acima de tudo, a honorabilidade e a veneração que os castanheiros nos merecem. A essas árvores, por muitas vidas que vivêssemos, nunca pagaríamos o quanto lhes devemos, e se não formos condenados a almas penadas é porque os castanheiros são tão nobres e magnânimos que dão sem esperarem reciprocidade.

Procurei imprimir aos meus despretensiosos versos uma leve tonalidade transmontana, com algumas pinceladas regionalistas como “avessedo”, “sincelo”, “daimoso”, “bilhós”. Relativamente ao termo ”avessedo”, muito vulgar nas minhas berças, prantadas em plena Terra Fria e não por acaso chamadas Rio Frio, permita-me uma breve anotação. As gentes lá do meu sítio vêem os cabeços e as encostas predominantemente numa óptica de duas faces: uma voltada a Norte, mais frígida e sombria, onde dá pouco o sol e onde as neves e as geadas levam mais tempo a derreter, a que chamam “avessedo”; outra virada a Sul, mais abrigada e exposta aos raios solares, que denominam ”soalheiro”.

Antes de existirem ciências agronómicas, já os camponeses sabiam, por experiência milenar, que certas plantas, como por exemplo a videira, se dão melhor ao soalheiro e que outras, como o castanheiro, preferem os avessedos. Na minha terra há vários soutos e todos, sem excepção, implantados nas vertentes frias; as vinhas, pelo contrário, estão geralmente no lado soalheiro.

Eu tenho uma certa predilecção pela palavra avessedo, por me ser familiar desde a infância e ser ao mesmo tempo popular e erudita. Até estranho quando encontro um trasmontano que não a conhece, mas pelos vistos não é extensiva a toda a província e há terras onde é alterada para avesseiro e abixeiro. As três formas constam nos dicionários como regionalismos. O progenitor destes rebentos é o latino adversus, um garanhão que, além destes, gerou uma catrefada de outros filhos como adverso, avesso, adversário, adversativo, (lado) avesso, (às) avessas, etc. Nem todos esses filhos são legítimos, havendo alguns “zorros”, fruto de uniões “aputadas” (oh que transmontanismo mais patusco!). Referi o pai desses irmãos; e a mãe? Perguntar-me-ão. Não a têm, são como os filhos do Ronaldo.

Vou terminar a minha parlenga, pedindo ao Dr. Jorge Lage que me desculpe tê-la prolongado além do razoável e ter posto à prova a sua paciência. As palavras, em particular as transmontanas, não são apenas como as cerejas, mas outrossim comos as castanhas; e eu distraí-me, imaginando que estava à lareira a conversar e a partilhar consigo umas castanhas mimosas e quentinhas. Castanhas que deviam ser estudadas por virólogos e epidemiólogos, pois tenho cá uma fezada que é delas que vai sair o almejado antídoto contra o demoníaco vírus. Entretanto, à cautela e sem esperar por tais estudos, cá me vou prevenindo com uma dose diárias de bilhós, que acompanho com um copito de jeropiga para lhes potenciar a eficácia terapêutica. Recomendo-lhe vivamente esta receita, que deve de ser tomada de manhã, como mata-bicho.

           

ABENÇOADOS  CASTANHEIROS

 

Moram nos avessedos dos outeiros,

em nevões e sincelos temperados,

os valentes, daimosos castanheiros,

a nós inteiramente devotados.

 

Distinguem-se entre as árvores de fruto

por serem atinados, previdentes;

aforram as castanhas no Verão

e arrecadam-nas dentro dos ouriços

para serem o pão dos indigentes

nos exauridos meses outoniços,


e os bilhós que nas noites de invernia

degustamos ao lume da lareira,

em fraternal, amena companhia

e em descontraída cavaqueira.

 

     In : Jorge Lage, QUEM DE DERA CÁ O TEMPO - Antologia da Maria Castanha, Ed. Do Autor, 2020, pág. 129.

 

 


quinta-feira, 25 de março de 2021

Paridade de Género

 


 

Depois de Ascenso Simões

se ter notabilizado

pelos seus desbocamentos

sobre o 25 de Abril

e sobre os Descobrimentos,

 

e para que a paridade

fosse uma realidade

no segmento feminil,

faltava aí um exemplo

que o pudesse igualar

com idêntico perfil.

E eis que se chega à frente

uma dama pesporrente,

dita Joana Cabral,

que no seu género é

mais do que fenomenal.

 

E basta-nos atentar

no que ela expectorou

sobre o tema do racismo

pra o podermos comprovar.

 

A Joana duma cana

e o Ascenso de alto senso

constituem lindo par,

e a cantarem em dueto,

com asnática harmonia,

são um alívio faceto

em tempos de pandemia.

 

Mas se a Joana é insana

e se o Ascenso é sandeu,

eles não são responsáveis,

por ter sido a natureza

quem assim os concebeu.

 

E por serem deputados

não devem ser censurados

porque a culpa não é deles

mas de quem os elegeu.

 

 

Isto Não É o da Joana

 


 

Que isto não é o da Joana

é de aceitação geral,

só não é para a Senhora

Doutora Joana Cabral.

 

Ela tem muitas razões

pra ser muito assenhorada:

não é só licenciada,

é doutora por extenso,

psicóloga, deputada,

muitas outras coisas mais,

um currículo imenso.

 

Com estas credenciais

e fincada em tais tamancos,

sentenciou Sua Excelência

que o racismo é pestilência

a que os pretos são imunes,

só aparece nos brancos.

 

E acrescentou a Doutora,

com supina petulância,

que quem disser o contrário

revela muita ignorância.

 

Senhor, às vezes pareces

demasiado indulgente,

deixas bolsar tais sandices

e por cima impunemente.

 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

As Pretensões do Ascenso Simões

 


Quando o Ascenso Simões

faz detonações verbais

estrondosas e chocantes,

quais as suas intenções?

 

Será que tenta chamar

sobre si as atenções?

Porque aspira a mais penacho,

a mais altas ascensões?

 

Ou diz esses disparates

pra mostrar que tem tomates,

que é um homem muito macho?

 

Ou não é por nada disso,

mas só por ser eguariço

ou então por estar borracho? 


segunda-feira, 8 de março de 2021

A Mulher Na Igreja

 

 

Prouve a Deus, por amor, vir ter connosco,

na sua divindade,

através do seu Verbo,

a segunda pessoa da Trindade.

 

Poderia ter vindo

de múltiplas maneiras,

mas escolheu aquela

mais humana e singela:

nascer de uma mulher a quem

não desdenhou fazê-La sua mãe.

 

A nenhum outro ser nem mesmo aos anjos

Deus outorgou tal privilégio,

e o homem, muito mal habituado,

no seu pedestal régio,

reagiu ressabiado.

 

Ferido em seu orgulho,

fez-lhe engulho uma tal disparidade;

se ao menos Deus tivesse optado

p’la lei da paridade…

 

Mesmo dentro da Igreja, ao arrepio

do proceder de Deus,

o homem retaliou com felonia:

rebaixou a mulher, tirou-lhe o pio,

vedou-lhe presidir à eucaristia.

Nem tida nem achada,

só por muito favor

lhe permite tarefas de criada.

 

Cabe-nos perguntar a tais mandões,

na sua prepotência:

até quando abusareis

da nossa paciência?



Ascenso Simões (e as suas dejecções)

  

Cada um é prò que nasce,

ninguém foge ao seu destino;

desgraçado do Ascenso

que nasceu pra cabotino.

 

E para mais veio ao mundo

com avaria nos canos:

evacua pela boca

em vez de ser pelo ânus.

 

Quando ao que Ascenso Simões

defecou com asserções

sobre o 25 de Abril

e sobre os Descobrimentos,

o pobre é inimputável,

por natureza eguariço;

não lhe aumentem os tormentos,

não o condenem por isso.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Direito Ao Esquecimento

  

                      

O juiz Pedro João *

mostra grande empenhamento

em pôr na Constituição

o direito ao esquecimento.

 

Porque será que o juiz

leva isso tanto a peito?

Acaso quer que esqueçamos

algo que ele tenha feito? 

 

 

                                                   * Presidente do Tribunal Constitucional

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

CATÓLICOS SOCIALISTAS

 

                                    

Num país que é cristão ou que aparenta,

os ímpios para sua promoção

e pra levarem água ao seu moinho,

precisam da caução

dum pouco de água benta,

mesmo só de um borrifo, de um cheirinho.

 

E os católicos ditos socialistas,

em terno apaparico,

prestam-se ao frete, fazem-lhes o jeito,

com desgosto de Deus e o Mafarrico

a esfregar as mãos de satisfeito.


 

CORONAVÍRUS

 

                                  Impante de ciência

e de tecnologia empanturrado,

embriagou-se de auto-suficiência,

colocou Deus de lado.

 

E bastou um micróbio infinitésimo

pra o levar à falência

para ser derrubado.

 

O homem só se eleva e engrandece,

só fica imunizado,

quando reza uma prece,

ajoelhado.




LÁGRIMAS POR VALENTINA

 

 

Adorável criança,

nos seus verdes nove anos de estatura,

aconchegando ao peito

o seu gatinho, cheia de ternura.

 

E enquanto esse retrato da menina,

desaparecida e procurada,

pela televisão era emitido,

já ela era cadáver, tendo sido

às mãos do próprio pai estrangulada.

 

A madrasta ajudou nesse suplício,

e aos olhos suplicantes da menina

a pedir salvação,

foi tão luciferina

que não lhe deu a mão.

 

Pai e madrasta monstros

que as leis da natureza desafiam,

pois no reino animal as próprias feras

não fazem isso às crias que procriam.

 

Meu Senhor e meu Deus,

Tu que és um Deus de amor, um Deus clemente

porque é que permitiste

que no altar do demónio

fosse imolada esta inocente?




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A Língua da Bastonária

 

 

Eu não julgava possível

em boca de bastonária

tamanha falta de nível,

linguagem tão latrinária.

 

É caso para ficarmos

todos muito apreensivos

caso ela fale assim

cos doentes de Covid

em cuidados intensivos.

 

Com essas cavalidades

vai ser tal o estupor

que lhes corta o oxigénio

e vão desta pra melhor.

 

Ou a Ordem põe na ordem

a alimária dita cuja,

ou então a bastonária

põe a Ordem toda suja.

 

 Flávio Vara

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

"Palavra Dada É Palavra Honrada" (António Costa)

  

 

Honra da palavra dada

como a donzela há-de ser:

quando a donzela é honrada,

não precisa de o dizer.

 

Se uma donzela proclama

a sua honra impoluta,

já foi com muitos prà cama,

teme que lhe chamem puta.

 

E se um político mula

a “palavra honrada” invoca,

com palavras dissimula

a sua honra badalhoca.

 

 

 

In: Flávio Vara, A Nata do Povo, Ed. Chiado, 2018

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A Vacina


O autarca de Reguengos, 
José Calixto chamado, 
não era prioritário 
e nem valetudinário, 
contudo foi vacinado. 

E eu que sou dos de risco 
e estou, às duas por três, 
em perigo de quinar, 
digam-me lá: quando chega, 
a vez de me vacinar? 

 - Calminha, não tenha inveja, 
saiba que, pra quem não seja 
tão listo como o Calixto 
nem compadre alentejano, 
a vacina para o bicho 
só chega daqui a um ano. 

 - Porra, vão para o diabo, 
daqui a um ano estou morto 
burro morto, vacina ao rabo. 


Flávio Vara

Avante, artistas, avante

Faz-me sempre muita espécie, acho mesmo repugnante saber que certos artistas se digam não comunistas e vão à festa do Avante.   ...