quinta-feira, 25 de março de 2021

Isto Não É o da Joana

 


 

Que isto não é o da Joana

é de aceitação geral,

só não é para a Senhora

Doutora Joana Cabral.

 

Ela tem muitas razões

pra ser muito assenhorada:

não é só licenciada,

é doutora por extenso,

psicóloga, deputada,

muitas outras coisas mais,

um currículo imenso.

 

Com estas credenciais

e fincada em tais tamancos,

sentenciou Sua Excelência

que o racismo é pestilência

a que os pretos são imunes,

só aparece nos brancos.

 

E acrescentou a Doutora,

com supina petulância,

que quem disser o contrário

revela muita ignorância.

 

Senhor, às vezes pareces

demasiado indulgente,

deixas bolsar tais sandices

e por cima impunemente.

 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

As Pretensões do Ascenso Simões

 


Quando o Ascenso Simões

faz detonações verbais

estrondosas e chocantes,

quais as suas intenções?

 

Será que tenta chamar

sobre si as atenções?

Porque aspira a mais penacho,

a mais altas ascensões?

 

Ou diz esses disparates

pra mostrar que tem tomates,

que é um homem muito macho?

 

Ou não é por nada disso,

mas só por ser eguariço

ou então por estar borracho? 


segunda-feira, 8 de março de 2021

A Mulher Na Igreja

 

 

Prouve a Deus, por amor, vir ter connosco,

na sua divindade,

através do seu Verbo,

a segunda pessoa da Trindade.

 

Poderia ter vindo

de múltiplas maneiras,

mas escolheu aquela

mais humana e singela:

nascer de uma mulher a quem

não desdenhou fazê-La sua mãe.

 

A nenhum outro ser nem mesmo aos anjos

Deus outorgou tal privilégio,

e o homem, muito mal habituado,

no seu pedestal régio,

reagiu ressabiado.

 

Ferido em seu orgulho,

fez-lhe engulho uma tal disparidade;

se ao menos Deus tivesse optado

p’la lei da paridade…

 

Mesmo dentro da Igreja, ao arrepio

do proceder de Deus,

o homem retaliou com felonia:

rebaixou a mulher, tirou-lhe o pio,

vedou-lhe presidir à eucaristia.

Nem tida nem achada,

só por muito favor

lhe permite tarefas de criada.

 

Cabe-nos perguntar a tais mandões,

na sua prepotência:

até quando abusareis

da nossa paciência?



Ascenso Simões (e as suas dejecções)

  

Cada um é prò que nasce,

ninguém foge ao seu destino;

desgraçado do Ascenso

que nasceu pra cabotino.

 

E para mais veio ao mundo

com avaria nos canos:

evacua pela boca

em vez de ser pelo ânus.

 

Quando ao que Ascenso Simões

defecou com asserções

sobre o 25 de Abril

e sobre os Descobrimentos,

o pobre é inimputável,

por natureza eguariço;

não lhe aumentem os tormentos,

não o condenem por isso.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Direito Ao Esquecimento

  

                      

O juiz Pedro João *

mostra grande empenhamento

em pôr na Constituição

o direito ao esquecimento.

 

Porque será que o juiz

leva isso tanto a peito?

Acaso quer que esqueçamos

algo que ele tenha feito? 

 

 

                                                   * Presidente do Tribunal Constitucional

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

CATÓLICOS SOCIALISTAS

 

                                    

Num país que é cristão ou que aparenta,

os ímpios para sua promoção

e pra levarem água ao seu moinho,

precisam da caução

dum pouco de água benta,

mesmo só de um borrifo, de um cheirinho.

 

E os católicos ditos socialistas,

em terno apaparico,

prestam-se ao frete, fazem-lhes o jeito,

com desgosto de Deus e o Mafarrico

a esfregar as mãos de satisfeito.


 

CORONAVÍRUS

 

                                  Impante de ciência

e de tecnologia empanturrado,

embriagou-se de auto-suficiência,

colocou Deus de lado.

 

E bastou um micróbio infinitésimo

pra o levar à falência

para ser derrubado.

 

O homem só se eleva e engrandece,

só fica imunizado,

quando reza uma prece,

ajoelhado.




LÁGRIMAS POR VALENTINA

 

 

Adorável criança,

nos seus verdes nove anos de estatura,

aconchegando ao peito

o seu gatinho, cheia de ternura.

 

E enquanto esse retrato da menina,

desaparecida e procurada,

pela televisão era emitido,

já ela era cadáver, tendo sido

às mãos do próprio pai estrangulada.

 

A madrasta ajudou nesse suplício,

e aos olhos suplicantes da menina

a pedir salvação,

foi tão luciferina

que não lhe deu a mão.

 

Pai e madrasta monstros

que as leis da natureza desafiam,

pois no reino animal as próprias feras

não fazem isso às crias que procriam.

 

Meu Senhor e meu Deus,

Tu que és um Deus de amor, um Deus clemente

porque é que permitiste

que no altar do demónio

fosse imolada esta inocente?




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A Língua da Bastonária

 

 

Eu não julgava possível

em boca de bastonária

tamanha falta de nível,

linguagem tão latrinária.

 

É caso para ficarmos

todos muito apreensivos

caso ela fale assim

cos doentes de Covid

em cuidados intensivos.

 

Com essas cavalidades

vai ser tal o estupor

que lhes corta o oxigénio

e vão desta pra melhor.

 

Ou a Ordem põe na ordem

a alimária dita cuja,

ou então a bastonária

põe a Ordem toda suja.

 

 Flávio Vara

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

"Palavra Dada É Palavra Honrada" (António Costa)

  

 

Honra da palavra dada

como a donzela há-de ser:

quando a donzela é honrada,

não precisa de o dizer.

 

Se uma donzela proclama

a sua honra impoluta,

já foi com muitos prà cama,

teme que lhe chamem puta.

 

E se um político mula

a “palavra honrada” invoca,

com palavras dissimula

a sua honra badalhoca.

 

 

 

In: Flávio Vara, A Nata do Povo, Ed. Chiado, 2018

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A Vacina


O autarca de Reguengos, 
José Calixto chamado, 
não era prioritário 
e nem valetudinário, 
contudo foi vacinado. 

E eu que sou dos de risco 
e estou, às duas por três, 
em perigo de quinar, 
digam-me lá: quando chega, 
a vez de me vacinar? 

 - Calminha, não tenha inveja, 
saiba que, pra quem não seja 
tão listo como o Calixto 
nem compadre alentejano, 
a vacina para o bicho 
só chega daqui a um ano. 

 - Porra, vão para o diabo, 
daqui a um ano estou morto 
burro morto, vacina ao rabo. 


Flávio Vara

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Cantares de José Afonso

Para além das edições da Nova Realidade (Tomar, 1966 e 1967) e da Fora de Texto (Coimbra, 1994 e 1995), prefaciadas por Manuel Simões, a obra poética Cantares de José Afonso teve, em 1968, uma edição clandestina  da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, que Flávio Henrique Vara sintetiza no preâmbulo:


(,,,) Reúnem-se aqui as letras das canções de José Afonso. Claro que elas são apenas um corpo à espera de ser habitado pela sua voz mágica e castigada, e que teráo como natural complemento os respectivos discos, editados ou a editar. Mas esse corpo possui qualidades literárias suficientes para justificar a sua publicação independentemente da música. E ainda aqui José Afonso continua a ser um exemplo para a indigência, que roça por vezes o impudor, da generalidade das letras da música nacional.

É, aliás, nas letras que melhor se evidencia aquele tacto invulgar com que José Afonso sabe ir ao encontro do povo, quer na exploração dos motivos, quer na forma como os interpreta. Povo gerado e modelado em convívio com o mar, tinha fatalmente que exibir as suas marcas nas várias manifestações da sua cultura. Na poesia o mar yem sido uma das notas mais obsidiantes. Não é, pois, gratuita a abundância nos Cantares de elementos como praias, barcos, sereias, marinheiros, despedidas; nem outrossim é gratuita a presença de certos símbolos do maravilhoso popular como moiras encantadas, cavaleiros, feiticeiras. José Afonso continua-os e moderniza-os, inserindo-os na realidade actual, em tons de ironia magoada.

Simultâneamente os seus versos abrem-se a figuras ou heróis populares da nossa história recente (Catarina de Baleizão, António Aleixo); aos problemas e dramas do quotidiano (vampiros, emigrantes, "meninas perdidas", mendigos); e à sua experiência docente em diversas paragens (presença da infância, temas extra-metrópole, etc).

A forma casa-se à maravilha com a temática: versos simples e curtos, com predomínio do mais vincadamente popular, o redondilho; repetições paralelísticas com reminiscências da lírica trovadoresca; frequência de estribilhos e refrões; toadas de cancioneiros, de jogos de roda, de canções de embalar, parte delas recolhidas, conforme testemunho do autor, directamente do povo. E, quer originais quer adaptações ou arranjos, todos os poemas são sujeitos a uma sábia elaboração de acordo com as exigências do canto, e cujo resultado é esse consórcio perfeito da letra e da música, só possível a alguém que consiga combinar o talento de alto poeta com o de grande cantor. Este é o dom de José Afonso, menestrel dos tempos modernos. (...)

Leia o texto completo aqui. Na altura, José Afonso ofereceu ao autor do preâmbulo um exemplar autografado desta edição clandestina. 
 

Ligações:  Associação José Afonso - Bibliografia; José Afonso, Cantares (Triplo V); Livro "Cantares de José Afonso" (Tributo a Zeca Afonso); Cantares (in-libris); Um história de jovens que queriam uma Nova Realidade (antes do 25 de Abril) – por Flamarion Maués (A Viagem dos Argonautas). 


sábado, 23 de janeiro de 2021

Horresco Referens

 

A besta do Apocalipse, 

na forma Trump, chegou; 

foi o povo americano, 

com seu voto soberano, 

que o pariu ou defecou. 


 A um ser tão escabroso 

nem sequer o Cão Tinhoso 

no Inferno deu guarida; 

recambiou-o para o mundo 

pra nos infernar a vida.



In
: Flávio Vara, A Nata do Povo, Ed. Chiado, 2018

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Soneto ATRUMPado

 

Boçal, atrabiliário, fanfarrão, 
convencido, nojento, chauvinista, 
caprichoso, garoto, vigarista, 
 xenófobo, racista, aberração. 

Ignorante, misógino, histrião, 
vaidoso, abominável, populista, 
primário, leviano, narcisista, 
demagogo, machista, charlatão. 

Pato bravo, inepto, repugnante, 
megalómano, rasca, trauliteiro, 
caricato, burlesco, nauseabundo. 

Egocêntrico, bronco, petulante,
ferrabrás, cabotino, trapaceiro, 
paranoico, palhaço, porco imundo. 


 In :  Flávio Vara, A Nata do Povo, Ed. Chiado, 2018

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

O Baton Dá O Tom


Só porque o André Ventura 
falou em lábios pintados,
os betos da extrema-esquerda
ficaram mais que estragados.

Vai daí machos e fêmeas
pintaram a embocadura
com baton e em resposta
às blasfémias do Ventura.

E o venturoso André,
que só queria berlinda,
agradece aos batoneiros
uma oferenda tão linda.

O Ventura é demagogo,
mas a esquerda fracturante
cai nela, apara-lhe o jogo,
dá toda a guita ao tratante.

 
Flávio Vara


domingo, 17 de janeiro de 2021

Cantigas, ó Rosa

Dei-me ao trabalho de ler, no Público de quinta-feira, o extenso, meandroso e pernóstico relambório do ex-director-geral da Política de Justiça, e relativo aos anteriormente "lapsos" , aos agora "erros" e aos futuros (...?), no currículo do candidato português a procurador europeu. 

Não lhe faltaram até eruditas citações, como esta de Bento de Jesus Caraça "Se não receamos os erros , é porque estamos sempre prontos a corrigi-los." (Comovente humildade!). Tantos esforços e contorções para branquear  "uma decisão política, democrática, legal, justificável e transparente". 

Porque será que no fim, e mesmo assim, não me convenceu o seu latim? Porque, curiosamente, me lembrou este provérbio latino "Excusatio non petita, accusatio manifesta", ou seja, em português vernáculo: "Uma desculpa não pedida é uma acusação manifesta".

Ligações: Público carta ao director (16 Jan 2021); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

E viva a Chica

 

Ministério da Justiça?
Chiça, que grande pivete,
donde vem um tal mau cheiro?
Vem de um certo Gabinete
que a Chica tornou chiqueiro.
 
Na batota e no cambão
quem a consegue igualar?
Apenas o seu patrão
com quem faz um lindo par.
 
A Chica bem merecia
uma boa chicotada,
mas na pandilha amiguista
é dos primeiros na lista
e muito apaparicada.

Flávio Vara

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Latinismos e moralismos

Em texto aqui publicado em 22-12-20, mencionei a expressão latina canes muti non volentes latrare, que é uma injunção bíblica e metafórica dirigida àqueles que, investidos em altas funções e devendo erguer a sua voz quando se torna necessário, não o fazem. O sr. António Cândido Miguéis (ACM), na sua epístola de 28-12-20, invectiva-me por eu não ter traduzido a expressão para português, “porque nem todos os eleitores do PÚBLICO estudaram latim” e porque, com essa frase, por ele considerada “quase injuriosa”, eu “exprobrei” os nossos bispos e cardeais. Ora o sr. ACM compreendeu perfeitamente a frase, e se o fez sem ter estudado latim, só me vem dar razão: não necessitava de ser traduzida; se o fez com conhecimento do idioma de Cícero, então entendeu-a de modo excessivo: viu nela o que lá não estava, ou seja, a “exprobração” aos nossos antístites. 

Uma das razões pelas quais eu não traduzi a expressão foi para não subestimar o entendimento e a literacia dos leitores (a bom entendedor meia palavra basta). E o sr. ACM até me devia agradecer o não ter menosprezado o seu acerado entendimento. Entendimento a cuja performance só faltou entender que, a haver naquela expressão latina algum resquício de “exprobração”, a responsabilidade deve ser pedida à Sagrada Escritura e não a mim.

domingo, 27 de dezembro de 2020

A Torre Bela e a alma

Imaginemos, por momentos, que as imagens que vimos na TV da carnificina na Torre Bela, em vez de serem cadáveres de gamos, veados e javalis, eram de homens, mulheres e crianças. Não nos passaria pela cabeça que seriam o resultado de um ataque de animais selvagens. Estes, quando matam as suas presas, não o fazem em tão larga escala, só matam por necessidade de defesa ou de subsistência, não dispõem os corpos alinhados em filas daquela maneira e, sobretudo, não matam por prazer, por desporto ou para fazerem colecção das suas vítimas.

São, segundo nós dizemos, animais “irracionais”. E, todavia, têm alma como nós. A palavra “animal” vem do latim anima, que significa alma, e quer dizer isso mesmo: dotado de alma. Por ter escrito isso num jornal da minha terra, escandalizei muitas almas pias e até fui chamado à pedra por um senhor cónego, vigário geral da diocese. Verdade seja dita que na conversa que tive com ele, e sem embargo da sua baixa literacia teológica, e de ser um salazarista impenitente, até me pareceu uma boa alma e por certo neste momento está no céu em alma e corpo.
 
Para afirmar que os nossos irmãos “irracionais” são também portadores de alma, nem precisamos de nos respaldar em renomados teólogos. Sentimo-lo e intuímo-lo quando somos atravessados pelo olhar de um cão abandonado, quando nos arrepiamos com as sevícias a que são sujeitos os touros nas arenas, quando nos deliciamos a ver o modo como as aves alimentam no ninho os seus filhotes e como outros animais defendem até à morte as suas crias. 

Porém, diante daquelas imagens que vimos na TV, eu já começo a duvidar que todos os animais sejam dotados de alma. Mas, a haver alguma espécie que o não seja, não tenho quaisquer dúvidas: trata-se do homo sapiens. Bom Natal.

Ligações: Público, carta ao director (27 Dez 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

E os nossos bispos e cardeais?

A população do nosso país é constituída na maioria por católicos, numa proporção que anda pelos oitenta por cento, segundo as estatísticas. Consequentemente é presumível que o bando de algozes que trataram e mataram o imigrante ucraniano Ihor Homenyuk e tentaram ocultar a sua tenebrosa façanha, era, na sua maioria, composto por baptizados e, quiçá, alguns até fossem à missa.

Os católicos dizem-se cristãos e uma das mais valiosas heranças da cultura cristã, e tradição já herdada dos antigos tempos bíblicos, é o acolhimento fraterno aos estrangeiros, aos migrantes, aos refugiados, aos peregrinos. A hospitalidade é para o cristão um dever sagrado; dar pousada a um expatriado é como uma visita de Deus a nossa casa.

O crime inominável perpetrado no SEF é um golpe cravado no âmago da mensagem evangélica, um buraco negro na mundividência cristã. Amarfanha-nos, interpela-nos. O Papa Francisco foi a Lampedusa testemunhar a sua vergonha pela forma como a Europa, que se reclama da "civilização cristã", trata os emigrantes e na sua recente encíclica Fratelli Tutti dedica largo espaço ao assunto. E entre nós onde param os hierarcas da igreja? Eu esperava que se manifestassem para me sentir mais acompanhado, mas até agora, como em muitas ocasiões, só vejo canes muti non volentes latrare. Este crime não os concerne? É para não se imiscuírem na política? Mas a política impede alguém de exprimir os seus sentimentos, de se condoer, de se exasperar, de chorar?

Ligações: Público carta ao director (28 Dez. 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

Avante, artistas, avante

Faz-me sempre muita espécie, acho mesmo repugnante saber que certos artistas se digam não comunistas e vão à festa do Avante.   ...