sexta-feira, 9 de abril de 2021

O BANDO DOS QUATRO *

  

Os trasmontanos que são

a desonra do convento

estão, como tudo indica,

em rápido crescimento.

 

E serrá-los um a um

é impossível, são de mais;

vou conceder essa honra

apenas aos maiorais.


CONSELHOS PRÉVIOS 

O viver é uma arte

que deve ser aprendida;

vou, por isso, apresentar-te

quatro mestres consumados

para venceres na vida.

 

Quer’s saber como as pessoas

de pobres se tornam ricas?

Pergunta ao Duarte Lima

que pode dar-te umas dicas.

 

Ambicionas ser atleta,

praticar o salto à vara

e saltar cada vez mais?

chama para treinador

o Armando de Vinhais.

Caso se faça rogado,

não tens de ficar aflito,

amostra-lhe um robalito

e está o assunto encerrado.

 

Desejas vender cabritos

sem ter cabras pròs parir? 

Sócrates tem o segredo,

ajuda-te a descobrir.

 

Gostas de um modus vivendi

do tipo “rouba mas faz”?

Inspira-te em Isaltino

que nesse campo é um ás.


JOSÉ SÓCRATES

Dos quatro membros do bando

que vieram do Nordeste

amesendar-se em Lisboa,

Sócrates vai ao comando,

é a figura de proa.

 

Por ter vivido na Beira,

em terras da Covilhã,

muitos pensam que é beirão,

mas de lá só tem a lã,

os seus genes e a carcaça

são de trasmontana raça,

pois que Vilar de Maçada,

 a sua terra natal,

é concelho de Alijó,

distrito de Vila Real,

 essa cidade que exibe

um longo memorial

de nomes de alto fulgor,

desde o rei seu fundador,

D. Dinis, o Trovador,

ao nauta Diogo Cão,

ao de escritores cimeiros,

de Camilo a Miguel Torga,

e de heróicos marinheiros

como Carvalho Araújo.

 

Que funesta maldição

traz agora um nome sujo

a conspurcar-lhe o brasão?


Nos tempos que atravessamos,

de tanta abominação

e de tanta falsidade,

grande falta nos fazia

um Sócrates como aquele

que foi mártir da verdade,

que travou contra os sofistas

uma impertérrita luta

 e que, por não se render,

foi condenado a beber

o veneno da cicuta.

 

Mas este que nos calhou

é o de Atenas ao avesso,

vive apenas da mentira,

é um réprobo, um possesso.

 

Eu até estou em crer

que não é de Trás-os-Montes,

mas do inferno oriundo,

um agente do Maligno

e por ele encarregado

de corromper este mundo.

 

Pelo sim ou pelo não,

tenho uma jaculatória

que rezo com muita fé:

a maleficiis socratibus

libera nos Domine.


ARMANDO VARA

                I

Na cabeça do país

Vinhais é o seu cocuruto;

famosa pelo fumeiro,

pela excelente castanha

e outras árvores de fruto.

 

Mas o que mais contribui

pra elevar o seu estatuto

não é o que ela acrescenta

ao produto interno bruto.

 

Vinhais é vila ancestral

e pletórica de história;

bastar-lhe-ia ter sido

terra natal do Buíça,

o tal que matou o rei,

para ficar para sempre

nos fastos da nossa grei.

 

Mas desde agora em diante

brilhará no seu brasão

uma outra insígnia rara:

que é a de ter sido berço

do banqueiro Armando Vara,

desse grande campeão

dos sem vergonha na cara.

 

II

Nas aldeias transmontanas

há uma velha tradição

na festa do padroeiro,

em que se ergue no terreiro

o tronco de um amieiro,

muito liso e ensebado,

ao qual se prende no cimo

um presunto ou outro mimo

para ver quem é capaz

de, ao passar a procissão,

marinhar plo tronco acima

e de lhe lançar a mão.


Trepar ao topo do fuste

muito Armando desejava;

só que esse caso exigia

capacidades diferentes

daquelas do salto à vara

em que ele se distinguia.

 

Armando andava frustrado,

e como não era tolo,

dava voltas ao miolo:

não haverá outra maneira

de subir sem ser a pulso?

Uma forma virtual

de escalar o mastaréu                                        

com novas tecnologias

e abarbatar o troféu?

 

Chegou mesmo a ponderar

uma forma de o fazer

que devia resultar:

a utilização de luvas

com aderência à madeira;

só que praticar batota,

de forma tão impudente,

expô-lo-ia à chacota

no meio de toda a gente.

 

Perante a impossibilidade

de subir sem ser à unha,

desistiu e foi à vida,

com uma grande caramunha.

 

III

A vida, de certo modo,

também é um tronco ensebado,

só que não é escalado,

à vista de todo o povo;

aí pode-se aldrabar

falsear as regras do jogo;


e mesmo sem grande garra

pode-se tocar guitarra,

e mesmo não tendo perna

pode saltar-se mui alto

recorrendo a força oculta,

por exemplo a catapulta

de um partido apropriado;

se não há unhas há cunhas,

há betinhos com padrinhos,

há tráfico de influências,

há as “boas” referências,

abusos, venalidades;

pululam os trapaceiros,

os últimos são primeiros.

 

Foi nessa grande desbunda

que o Armando mergulhou,

como peixe em água funda.

 

Mas apesar disso tudo,

por vezes até sucede

que mesmo o peixe graúdo

é apanhado na rede.


DUARTE LIMA 

Postada sobre altas penhas

como uma águia real,

ou cidade maneirinha

como um ninho de andorinha

no sobranceiro beiral,

ó Miranda veneranda,

ó janela e sentinela

do reino de Portugal.

 

Não merecias que um filho

que alimentaste aos teus seios,

só por auri sacra fames

se envolvesse tão infames

tão criminosos enleios;

 

que um teu menino de coro,

que cantava como um anjo

nos claustros da tua Sé,

perdesse todo o decoro,

se tornasse um tal marmanjo,

renegasse a tua fé.

 

Mirandês desnaturado,

metido por maus caminhos,

ele é a tua vergonha,

desonrou-te a capa de honras,

manchou os teus pergaminhos.

 

Ó tredo Duarte Lima,

como te deste ao relaxo!

Ascendeste tanto acima

e desceste tanto abaixo!

 

Duarte Lima precito,

do clube dos embusteiros,

não mais virás a Miranda

para ver os pauliteiros.


Apostilha


No romance de Camilo

chamado “A Queda De Um Anjo”,

o principal personagem

é um bisonho trasmontano,

deputado por Miranda,

que, arribado à capital,

fica logo encandeado

pela vida mundanal,

perde a simpleza serrana,

perde até a tramontana,

para acabar muito mal.

 

A figura camiliana

e a de Duarte Lima

estão uma com a outra

em perfeitíssima rima.

 

E daqui a conclusão:

ou Camilo era vidente

de grande premonição,

ou Duarte Lima quis

conferir realidade

a uma obra de ficção.


ISALTINO MORAIS

Natural de Mirandela

e até gostava de alheiras,

mas começava a achar chato

ver as mesmas iguarias

todos os dias no prato.

 

Mirandela tem um rio

onde aprendeu a nadar,

mas isso não lhe bastava,

ele queria ser surfista,

águas que tivessem ondas

pra surfar na sua crista.

 

O rio Tua a correr

e Isaltino sem poder

realizar os seus sonhos,

os dias em Mirandela

eram frustes e tristonhos.

 

E eis que na festividade

da Senhora do Amparo,

padroeira da cidade,

aconteceu que Isaltino

se cruzou com uma cigana

que lá andava a ler o sino.

 

A cigana era vidente

e de horóscopo seguro;

pediu-lhe a palma da mão,

 fez-lhe logo a predição

do seu próximo futuro:

 

pelas conjunções astrais,

o Isaltino Morais

em breve iria mudar

da cidade à beira rio

para outra à beira mar,

para a cidade de Oeiras,

sua terra prometida

como assim estava prescrito;

lá esqueceria as alheiras

como Israel esqueceu

as cebolas do Egipto.

 

Lá havia muitas maneiras

para encher as algibeiras,

seus cabedais engrossar,

que um mirandelense guitcho

não ia desperdiçar.

 

E foi assim que este narro,

este trasmontano astuto,

elevou o seu estatuto,

mudou de marca de carro,

deixou de fumar cigarro,

passou a fumar charuto.

 

Tal como a lendária Inês,

depois de morta rainha,

também depois da prisão

ele venceu a eleição,

continuando a ser sultão

da cidade ribeirinha.

 

v

 

Aqui fica uma aguarela

de Isaltino tal como é:

um narro de Mirandela,

um autarca sempre em pé.



* In: Flávio Vara, SERRAR DA VELHA - Por Detrás dos Montes . Para publicação

 

 


domingo, 4 de abril de 2021

BILHETE DE IDENTIDADE

 


 

Eu sou Vara de apelido

e sou de além do Marão,

mas por lá Varas há mais;

não quero ser confundido

com o Vara de Vinhais,

o tal Vara dos robalos

que é notícia nos jornais

pelas piores indecências.

Eu não trafico influências,

subornos de sucateiro;

eu não sou Vara de porcos,

sou Vara de marmeleiro.

 

 

 

 

                                                                        

quinta-feira, 1 de abril de 2021

MADAMA DE RAÇA

   [Aos moradores da freguesia da Ameixoeira (Lisboa) 

que têm defendido os animais abandonados]

 

 

 

Apareceu aqui ao abandono,

era um cachorro meigo o “Amarelinho”;

e enquanto procurávamos um dono,

dávamos-lhe de comer e de carinho.

 

Ele já nos conhecia;

vinha, abanando a cauda, ter connosco,

lambia-nos as mãos, agradecia.

 

Por perto um dia passa

a mais fina madama cá da praça,

levando pela trela

a sua cadela de raça.

 

A bicha, em pleno cio,

lançou o seu olhinho,

num claro desafio

ao nosso “Amarelinho”.

 

Não tolera a madama

que um humilde rafeiro

tenha acorrido ao cheiro

da lulu topo-de-gama.

 

E inchada em seu orgulho,

a fina flor do entulho,

sem mais contemplação,

chama o esquadrão da morte

da Câmara Municipal

para abater o cão.

 

Foi assim por desgraça

que ficou a saber-se em toda a zona,

p’la cadela de raça,

qual a raça da dona;

 

E que na lotação

dos nossos animais

temos um cão a menos

e uma madama a mais.

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

OS CORNOS DO SENHOR PADRE

 

 

O pároco de Barrancos

anda muito amofinado,

por dizerem que tem cornos

não sendo ele casado.

 

Pois saiba o Sr. Vigário

que já não é o primeiro

a quem coube esse fadário:

ter cornos sendo solteiro.

 

E ter mulher ou não ter

não muda a situação,

pois nada pode fazer

quem nasceu para cabrão.

cornos tem o Mafarrico

e dizem que é solteirão.

 

E há p’ra aí muito sacana

que devia olhar-se ao espelho

e estar muito caladinho;

que é de raça alentejana,

mas manda cada chavelho

Que até parece do Minho.

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

MAROTÍSSIMOS JUÍZES

 

 

Greve da magistratura,

órgão de soberania?!

é algo contranatura,

o cume da aleivosia.

 

Da função de magistrados

só querem ter o proveito;

pretendem ser respeitados

sem se darem ao respeito.

 

E inda querem que o País

não fique de olhos em bico

ao ver o sr. juiz

mijar fora do penico?

 

                                                    In : Flávio Vara, A BEM SOADA GENTE – Roma Ed, 2007.

 

 

terça-feira, 30 de março de 2021

Colaboração in "QUEM ME DERA CÁ O TEMPO - Antologia da Maria Castanha"

 

Envio de colaboração

(ao Dr. Jorge Lage para a “Antologia da Maria Castanha”)

 

Venho satisfazer o compromisso que assumi de lhe enviar um texto para a sua antologia de homenagem ao castanheiro. Se não me apressasse a fazê-lo, além do risco que já corro por pertencer ao grupo mais acossado pelo assassino coronavírus, ficaria sujeito a outro ainda pior: ter de vaguear para sempre neste mundo, como alma penada, que é, segundo voz corrente, o castigo a que são condenados os que morrem com alguma promessa por cumprir.

O texto que aqui vai é de urdidura poética, em versos decassílabos e em número de catorze, como nos sonetos, e também, como eles, passível de emenda, até porque pode não corresponder ao caderno de encargos da encomenda e à dignidade devida àquela árvore tão nossa amiga. Por isso, o encomendador fica de mãos livres para, se o entender, lhe barrar a entrada na antologia, sem qualquer melindre da minha parte, até porque eventuais defeitos detectados no controlo de qualidade serão da inteira responsabilidade do coronavírus, pelas perturbações que trouxa à minha musa, e porque o que está em causa é, acima de tudo, a honorabilidade e a veneração que os castanheiros nos merecem. A essas árvores, por muitas vidas que vivêssemos, nunca pagaríamos o quanto lhes devemos, e se não formos condenados a almas penadas é porque os castanheiros são tão nobres e magnânimos que dão sem esperarem reciprocidade.

Procurei imprimir aos meus despretensiosos versos uma leve tonalidade transmontana, com algumas pinceladas regionalistas como “avessedo”, “sincelo”, “daimoso”, “bilhós”. Relativamente ao termo ”avessedo”, muito vulgar nas minhas berças, prantadas em plena Terra Fria e não por acaso chamadas Rio Frio, permita-me uma breve anotação. As gentes lá do meu sítio vêem os cabeços e as encostas predominantemente numa óptica de duas faces: uma voltada a Norte, mais frígida e sombria, onde dá pouco o sol e onde as neves e as geadas levam mais tempo a derreter, a que chamam “avessedo”; outra virada a Sul, mais abrigada e exposta aos raios solares, que denominam ”soalheiro”.

Antes de existirem ciências agronómicas, já os camponeses sabiam, por experiência milenar, que certas plantas, como por exemplo a videira, se dão melhor ao soalheiro e que outras, como o castanheiro, preferem os avessedos. Na minha terra há vários soutos e todos, sem excepção, implantados nas vertentes frias; as vinhas, pelo contrário, estão geralmente no lado soalheiro.

Eu tenho uma certa predilecção pela palavra avessedo, por me ser familiar desde a infância e ser ao mesmo tempo popular e erudita. Até estranho quando encontro um trasmontano que não a conhece, mas pelos vistos não é extensiva a toda a província e há terras onde é alterada para avesseiro e abixeiro. As três formas constam nos dicionários como regionalismos. O progenitor destes rebentos é o latino adversus, um garanhão que, além destes, gerou uma catrefada de outros filhos como adverso, avesso, adversário, adversativo, (lado) avesso, (às) avessas, etc. Nem todos esses filhos são legítimos, havendo alguns “zorros”, fruto de uniões “aputadas” (oh que transmontanismo mais patusco!). Referi o pai desses irmãos; e a mãe? Perguntar-me-ão. Não a têm, são como os filhos do Ronaldo.

Vou terminar a minha parlenga, pedindo ao Dr. Jorge Lage que me desculpe tê-la prolongado além do razoável e ter posto à prova a sua paciência. As palavras, em particular as transmontanas, não são apenas como as cerejas, mas outrossim comos as castanhas; e eu distraí-me, imaginando que estava à lareira a conversar e a partilhar consigo umas castanhas mimosas e quentinhas. Castanhas que deviam ser estudadas por virólogos e epidemiólogos, pois tenho cá uma fezada que é delas que vai sair o almejado antídoto contra o demoníaco vírus. Entretanto, à cautela e sem esperar por tais estudos, cá me vou prevenindo com uma dose diárias de bilhós, que acompanho com um copito de jeropiga para lhes potenciar a eficácia terapêutica. Recomendo-lhe vivamente esta receita, que deve de ser tomada de manhã, como mata-bicho.

           

ABENÇOADOS  CASTANHEIROS

 

Moram nos avessedos dos outeiros,

em nevões e sincelos temperados,

os valentes, daimosos castanheiros,

a nós inteiramente devotados.

 

Distinguem-se entre as árvores de fruto

por serem atinados, previdentes;

aforram as castanhas no Verão

e arrecadam-nas dentro dos ouriços

para serem o pão dos indigentes

nos exauridos meses outoniços,


e os bilhós que nas noites de invernia

degustamos ao lume da lareira,

em fraternal, amena companhia

e em descontraída cavaqueira.

 

     In : Jorge Lage, QUEM DE DERA CÁ O TEMPO - Antologia da Maria Castanha, Ed. Do Autor, 2020, pág. 129.

 

 


quinta-feira, 25 de março de 2021

Paridade de Género

 


 

Depois de Ascenso Simões

se ter notabilizado

pelos seus desbocamentos

sobre o 25 de Abril

e sobre os Descobrimentos,

 

e para que a paridade

fosse uma realidade

no segmento feminil,

faltava aí um exemplo

que o pudesse igualar

com idêntico perfil.

E eis que se chega à frente

uma dama pesporrente,

dita Joana Cabral,

que no seu género é

mais do que fenomenal.

 

E basta-nos atentar

no que ela expectorou

sobre o tema do racismo

pra o podermos comprovar.

 

A Joana duma cana

e o Ascenso de alto senso

constituem lindo par,

e a cantarem em dueto,

com asnática harmonia,

são um alívio faceto

em tempos de pandemia.

 

Mas se a Joana é insana

e se o Ascenso é sandeu,

eles não são responsáveis,

por ter sido a natureza

quem assim os concebeu.

 

E por serem deputados

não devem ser censurados

porque a culpa não é deles

mas de quem os elegeu.

 

 

Isto Não É o da Joana

 


 

Que isto não é o da Joana

é de aceitação geral,

só não é para a Senhora

Doutora Joana Cabral.

 

Ela tem muitas razões

pra ser muito assenhorada:

não é só licenciada,

é doutora por extenso,

psicóloga, deputada,

muitas outras coisas mais,

um currículo imenso.

 

Com estas credenciais

e fincada em tais tamancos,

sentenciou Sua Excelência

que o racismo é pestilência

a que os pretos são imunes,

só aparece nos brancos.

 

E acrescentou a Doutora,

com supina petulância,

que quem disser o contrário

revela muita ignorância.

 

Senhor, às vezes pareces

demasiado indulgente,

deixas bolsar tais sandices

e por cima impunemente.

 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

As Pretensões do Ascenso Simões

 


Quando o Ascenso Simões

faz detonações verbais

estrondosas e chocantes,

quais as suas intenções?

 

Será que tenta chamar

sobre si as atenções?

Porque aspira a mais penacho,

a mais altas ascensões?

 

Ou diz esses disparates

pra mostrar que tem tomates,

que é um homem muito macho?

 

Ou não é por nada disso,

mas só por ser eguariço

ou então por estar borracho? 


segunda-feira, 8 de março de 2021

A Mulher Na Igreja

 

 

Prouve a Deus, por amor, vir ter connosco,

na sua divindade,

através do seu Verbo,

a segunda pessoa da Trindade.

 

Poderia ter vindo

de múltiplas maneiras,

mas escolheu aquela

mais humana e singela:

nascer de uma mulher a quem

não desdenhou fazê-La sua mãe.

 

A nenhum outro ser nem mesmo aos anjos

Deus outorgou tal privilégio,

e o homem, muito mal habituado,

no seu pedestal régio,

reagiu ressabiado.

 

Ferido em seu orgulho,

fez-lhe engulho uma tal disparidade;

se ao menos Deus tivesse optado

p’la lei da paridade…

 

Mesmo dentro da Igreja, ao arrepio

do proceder de Deus,

o homem retaliou com felonia:

rebaixou a mulher, tirou-lhe o pio,

vedou-lhe presidir à eucaristia.

Nem tida nem achada,

só por muito favor

lhe permite tarefas de criada.

 

Cabe-nos perguntar a tais mandões,

na sua prepotência:

até quando abusareis

da nossa paciência?



Ascenso Simões (e as suas dejecções)

  

Cada um é prò que nasce,

ninguém foge ao seu destino;

desgraçado do Ascenso

que nasceu pra cabotino.

 

E para mais veio ao mundo

com avaria nos canos:

evacua pela boca

em vez de ser pelo ânus.

 

Quando ao que Ascenso Simões

defecou com asserções

sobre o 25 de Abril

e sobre os Descobrimentos,

o pobre é inimputável,

por natureza eguariço;

não lhe aumentem os tormentos,

não o condenem por isso.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Direito Ao Esquecimento

  

                      

O juiz Pedro João *

mostra grande empenhamento

em pôr na Constituição

o direito ao esquecimento.

 

Porque será que o juiz

leva isso tanto a peito?

Acaso quer que esqueçamos

algo que ele tenha feito? 

 

 

                                                   * Presidente do Tribunal Constitucional

Avante, artistas, avante

Faz-me sempre muita espécie, acho mesmo repugnante saber que certos artistas se digam não comunistas e vão à festa do Avante.   ...