sábado, 12 de setembro de 2020

A cidadania e outras coisas

Vai por aí uma grande rebaldaria por causa de um prato gastronómico, que consta no cardápio educativo, com o nome de “Cidadania e Desenvolvimento”. A coisa chegou a tal ponto que a deputada Isabel Moreira (a mosca acorre ao mel e à fracturância acorre a Isabel) que é fã do acepipe, atribui aos seus opositores labéus e indignidades como “mentiras abjectas”, “argumentos abusivos”, “bizarrias jurídicas”, “cabeça povoada de sexismo, racismo ou homofobia”, “agenda de ódio” e outros mimos (cf. “Público” de 10-09-2020). 

Dado que à cabeça da lista de subscritores do manifesto anti-ementa figura o nome do pai da deputada, Adriano Moreira, tais ignomínias (pasmai ó gentes!) atingem o próprio progenitor da dita cuja. 

Na minha maneira de ver, trata-se de uma tempestade, não diria num copo de água, mas mais propriamente num cozido à portuguesa. A questão não está em rejeitar o prato sem mais, pois no cozido constam várias iguarias e se há quem não goste de uma delas, por exemplo do chispe, retire-se de lá esse ingrediente e mantenha-se o prato. Tão simples como isso. Cristóvão Colombo não descobriu apenas a América, mas também o ovo com o seu nome. Façam como ele, e bom apetite para todos.

sábado, 29 de agosto de 2020

Os CTT do nosso descontentamento

Que saudades eu já tenho do tempo em que recebia a minha correspondência a tempo e horas, recebia as revistas e os jornais que assino sem semanas de atraso ou no “Dia de São Nunca”, e já depois de ter lido as respectivas notícias e conteúdos noutros órgãos de informação! 

Só quando perdemos as coisas é que lhes damos valor, e eu valorizo mais agora os antigos CTT que, não sendo perfeitos, cumpriam a sua missão a contento. Até mudei a minha opinião sobre as empresas públicas versus privadas, pois detestava as primeiras e enaltecia as segundas!... 

Leio no PÚBLICO de hoje (28-08-2020) que a Anacom, regulador das comunicações, “destaca que é o quarto ano consecutivo que a empresa falha o cumprimento da totalidade dos indicadores de qualidade de serviço”. 

Então pergunto: o que fazem os partidos e o Governo? Ocupam-se com o sexo dos anjos?

Ligações: Público carta ao director (28 Ago 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

sábado, 4 de julho de 2020

Covid-19, verdade e humildade

Não pertenço ao partido do Governo. Mas isso não me impede de reconhecer que as autoridades da saúde têm feito o melhor que podem, não se poupando a esforços e à vontade a de acertar. Eu não me queria ver na sua pele. Se outros estivessem em seu lugar, fariam melhor?
 
Nem o país nem as estruturas de saúde estavam preparadas para este tsunami viral e, sejamos honestos, não podemos estranhar que, nestas circunstâncias, possa haver falhas aqui e acolá. O contrário é que seria estranho. Por isso achei destemperadas e intempestivas as declarações do presidente da Câmara de Lisboa, a tal respeito e que, mesmo sem querer, nos insinuam: que desígnio terão latente?
 
No entanto não acho criteriosa nem prudente a afirmação da ministra da Saúde de que “não há nenhum caso de infecção associada a transportes públicos”. Sabendo-se que uma das causas mais propiciadoras da infecção são os ajuntamentos, e constatando que em muitos transportes públicos as pessoas vão ao molho, é praticamente impossível que daí não resultem infecções, mesmo que não se conheçam.
 
Tenho relutância em fazer, a propósito dos transportes, a leitura que alguns fizeram a propósito das máscaras: são ineficazes porque não as têm. Há problemas que não se resolvem a curto prazo. É a vida. Custa tanto a reconhecê-lo?

Ligações: Público, carta ao director (4 Jul 2020); Outras cartas ao Director do Público de Fávio Vara.

Acordo ortográfico

Para quem vem acompanhando, há anos, a vexata quaestio do (des)acordo ortográfico, a carta que o embaixador Seixas da Costa escreveu sobre o assunto neste jornal, no dia 4 do corrente, é no mínimo repugnante. “Carta sobre o assunto” não é porventura a expressão mais adequada, porque o sr. embaixador não escreveu propriamente sobre o (des)acordo, até porque não deve perceber muito acerca do tema. A carta é sobretudo ad hominem, contra o jornalista Nuno Pacheco (não conheço o jornalista a não ser pelos seus escritos, nem ele precisa de ajudas alheias na defesa da sua honra). 

O sr. embaixador não gosta que se grafe com minúscula o dito cujo (des)acordo, pela mesma razão, diz ele, que no tempo da outra senhora a PIDE minusculizava o “partido comunista”. São gostos, não se discutem. Mas discutem-se, sim, as bases anticientíficas, a acefalia e a prepotência com que tais normas foram impostas contra tudo e contra todos, e que conduziram ao actual caos que só não vê quem não quer ver. 

O referido diplomata, e sem qualquer diplomático prurido, atira-se a um jornalista que tem sido paladino na defesa da abolição do malfadado (des)acordo, acoimando-o de escrever os seus artigos “onanisticamente, para prazer solitário”. O sr. embaixador Seixas da Costa, que tão desinibidamente diz o que gosta, está a precisar duma pouco diplomática resposta. Para já, de uma coisa pode ficar certo: que na investida contra o jornalista está mais solitário, do que está o jornalista contra o acordo asinário.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Nuno Nozelos, Escritor Egrégio

Costumo passar férias nas minhas berças, prantadas para além e bastante a norte do Marão, já nas vizinhanças de nuestros hermanos. Uma vez, numa dessas vilegiaturas e em amena conversa com um meu conterrâneo e compincha dos tempos da escola primária, fez-me ele esta pergunta: ouvi dizer que fulano é escritor, mas é mesmo? O fulano a que se referia era outro cara que também tinha sido nosso condiscípulo nas primeiras letras e que na altura botava umas zurrapas impressas, num jornal semanário da região, orn(e)ando-as com abundantes calinadas ortográficas e gramaticais, ignorando até que o sujeito não se separa, por virgulas, do predicado. Por estas e por outras é que a pergunta do meu amigo sobre se o dito cujo era ou não era escritor me entalou num embaraçoso dilema: se dissesse que sim, faltava à verdade e violentava a minha consciência; se dissesse que não, desagradava ao meu amigo que ainda era aparentado com o “jornalista”. 

Lá me safei como pude e com outra pergunta: quando se fazem obras numa casa, como chamam ao operário encarregue de a pintar? Pintor, respondeu. Então, se quem pinta é pintor, quem escreve... E deixei que fosse ele a completar a frase e a ficar com o ónus da resposta.
 
Todos os escritores escrevem, mas nem todos os que escrevem são escritores. O verbo escrever deu origem a escritor, seu filho legítimo, e também é pai duma infinidade de filhos bastardos: escrevente, escrevedor, escrevinhador, escriba, escrivão, escriturário e por aí fora. Muitos destes zorros invejam ao escritor o seu estatuto, e alguns até se travestem com o seu nome. Frequentemente a comunicação social dá notícia de falsos médicos, falsos padres, falsos advogados, etc., mas ninguém denuncia os falsos escritores, o gato por lebre, frequente nessa confraria. Se por acaso houvesse uma ASAE das letras, não lhe faltava trabalho!...

Em Trás-os-Montes, no campo literário há do melhor e do piorio. Referi um exemplo do segundo para realçar, por contraste, o perfil de um escritor que o é a sério, para destrinçar o ouro do pechisbeque. Refiro-me 25 a Nuno Nozelos, a quem, no título deste texto, chamei escritor egrégio. Escritor porque, para o ser, não basta escrever livros, é necessário trazer algum valor acrescentado ao património de uma língua, uma contribuição de cunho pessoal, tão inconfundível como as impressões digitais; em suma, é preciso ter talento, um dom que o Criador não distribui a toda a gente. O escritor, e sobretudo o poeta (do grego poiein, produzir, gerar), é de certa forma um émulo de Deus; as suas palavras, como o fiat divino, criam o que nomeiam.
 
Também chamei egrégio a Nuno Nozelos, e não foi por acaso. Esse adjectivo provém duma palavra latina, grex, que significa rebanho, e que deu, em português, grei. É precedida do prefixo e(x), a indicar movimento de dentro para fora. Egrégio é, portanto, aquele que sobressai na manada, aquele que se distingue da vulgaridade, o notável.
 
E neste momento dou comigo a pensar num rebanho de escreventes, que existiu até há poucos anos atrás, um jornal-revista chamado “Poetas & Trovadores”. Editava-se em Guimarães, mas servia de redil a reses oriundas de diferentes paragens, do Minho ao Algarve. As suas páginas vinham atulhadas de produtos constituídos, na sua maioria, por aglomerados de palavras sem ritmo, sem métrica, sem harmonia, cheias de vulgaridades, de platitudes, que só por incluírem aqui ou ali uma rima, se reivindicavam de poesia. Assinei-o durante três anos. A honra do convento e o preço da assinatura só se salvaram nas poucas vezes em que nessa publicação pude ler poemas dignos desse nome, com originalidade, com mestria de fabrico, assinados por Nuno Nozelos. Era a pepita no meio do cascalho.

Além de poeta, Nuno Nozelos era um abalizado prosador e um prosador trasmontano. Chamo-lhe assim não primacialmente por ter nascido em Trás-os-Montes, mas pelos ingredientes que recheiam os seus livros, e que são de marca tão genuína como as alheiras do seu concelho, Mirandela. Um escritor, qualquer que seja a sua terra, não tem necessariamente de escrever sobre ela. Só quando é obrigado pelo coração. Ora Nuno Nozelos amava entranhadamente o seu terrunho trasmontano e as suas gentes; ali regressava com frequência, como ao aconchego materno, como o falcão regressa à sua querência; ali se retemperava, se repristinava. Reparem na melodia repousante destes versos, do livro “Musa Preterida”, p. 27:
 
E vou dar ao casebre de uma aldeia. 
Ali fico e repouso do caminho. 
Há batatas e pão, há caldo e vinho, 
rachas ao lume e azeite na candeia.

Esse amor transbordou para a sua obra, em especial para os seus livros de contos. Neles vive o povo do Nordeste, com o seu modo de ser, a sua cultura, as suas condições de vida, os seus interesses, os seus pundonores, as suas manhas e, acima de tudo, com o seu linguajar. Os forasteiros que desejem saber como são as gentes que habitam aquelas paragens, leiam os contos de Nuno Nozelos e não percam “Gente da Minha Terra”. E os naturais de lá, que gostem de se mirar ao espelho, leiam-nos também.

Nuno Nozelos era dotado de talentos estéticos não só no campo da literatura. Poucos saberão que também era amante da pintura e que a praticou por um breve período, vendo-se forçado a abdicar dela por impedimento de uma rinite alérgica que se lhe exacerbava com o cheiro e a proximidade das tintas. Por amabilidade de Celeste Nozelos, que foi a sua dedicada companheira ao longo da vida, pude recentemente admirar, na sua casa, alguns quadros por ele pintados. E por essa amostra – ex digito gigas – avaliei até onde poderia ter ido nessa arte plástica, se tivesse podido consagrar-se-lhe. 

Falta acrescentar que, como é próprio das pessoas de valor e ao contrário do tal caramonico a que me referi no início, o Nuno Nozelos era uma pessoa simples, modesta, de trato afável e avesso a exibicionismos. No rebanho há os que sobressaem pela própria estatura, são os egrégios; e os que forcejam por sobressair em bicos de pés, são os egressos. 

Nós, seres humanos, somos ontologicamente falhados, porque nascemos para viver incessantemente à procura do que é impossível conseguir dentro das fronteiras deste mundo: matar a sede de beleza e de amor que nos habita e nos consome. Os poetas e os artistas são porventura aqueles que mais se acercam da fonte, mas, por outro lado, são os que mais excruciantemente experimentam a sua falha. 

Meu caro Nuno Nozelos, espero que do outro lado da fronteira que já transpuseste, descanses ressarcido de todas as tuas sedes.

Avante, artistas, avante

Faz-me sempre muita espécie, acho mesmo repugnante saber que certos artistas se digam não comunistas e vão à festa do Avante.   ...